A seguinte resenha foi publicada
originalmente em:
OLIVEIRA, T.L.T. Argumentação: a ferramenta
do filosofar (Resenha). Pense: revista
mineira de filosofia e cultura. N. 4. Belo Horizonte, julho 2013. Pp-27-28
RESENHA:
Um dos maiores desafios para o professor de filosofia do Ensino
Médio é, sem dúvida, o modo como deve apresentar sua disciplina para alunos que
nunca tiveram contato com a dinâmica filosófica. A maioria dos livros didáticos disponíveis
no Brasil opta por dizer que a filosofia é disciplina crítica, transformadora e
indispensável, que faz perguntas que outras áreas não fazem. No entanto, ao
longo do material didático, o que o aluno (e também o professor) encontra são
sucessões de teorias, geralmente colocadas por um critério cronológico. Os
livros didáticos, mesmo o melhor deles, sofrem das mesmas carências do ensino
de filosofia na educação superior: a falta de problematização das teorias e
ausência de um método filosófico que estruture o saber produzido e reproduzido
na academia.
Sem uma boa definição de filosofia e sem uma clara metodologia
filosófica, as teorias e textos de filósofos podem simplesmente tornar-se para
o aluno um exercício enfadonho e sem sentido. Afinal, o aluno pode com razão se
perguntar: “O que estou fazendo quando estudo esse texto?” ou ainda “O que o
professor pretende apresentando tantos nomes e teorias?”.
Para preencher essa lacuna do ensino, a editora WMF Martins Fontes
lançou uma coleção filosófica amigável para o leitor não especializado.
Trata-se da coletânea intitulada “Filosofias: o prazer de pensar”. Não é meu
objetivo tratar de toda a coleção, mas do volume 2, que trata especificamente
da metodologia filosófica. O professor da UNIFESP, Juvenal Savian Filho há anos
dedica-se à pesquisa e ao ensino de filosofia. No seu “Argumentação: a
ferramenta do filosofar” Savian Filho procurou condensar o básico da lógica
formal e informal necessária para a argumentação filosófica. O autor, no
entanto, não se dedica às regras da lógica e nas condições formais de validade[1],
mas a exercícios de formalização de argumentos, explicitação de premissas e
explicação de textos filosóficos.
A maior virtude do livreto é seu caráter prático. O autor consegue
em poucas páginas situar o leitor na importância que a argumentação tem em
vários aspectos da vida, como na ciência e na filosofia. O filósofo aposta na
realização de exercícios para habituar o leitor (supostamente um adolescente do
ensino médio) à atividade filosófica. A filosofia oferece problemas cujas
respostas constituem teses elaboradas pelos pensadores. Tais teses não são
gratuitas, mas sustentadas com argumentos, a única ferramenta de que o filósofo
dispõe para seu propósito. É por isso que a obra sobre a qual escrevemos tem
importância fundamental e se apresenta como um apoio útil no ensino de
filosofia na educação básica.
Logo no primeiro capítulo o texto conceitua “premissas” e
“pressupostos” como os pontos de partida para as conclusões que defendemos. Uma
vez definidos os conceitos, o autor faz análise de dois argumentos passo a
passo, pela explicitação dos pressupostos e premissas e pela investigação da
relação entre premissas e conclusão, dando uma noção bastante intuitiva do que
seja validade de um argumento. Identificamos um pequeno problema no segundo
exemplo de argumento (p.21):
Sempre que chove, os peixes não mordem a isca
Os peixes não
estão mordendo a isca
Então, deve ter
chovido recentemente
O exemplo é ruim porque é um argumento inválido.
Trata-se de uma indução. Savian Filho procura mostrar que o raciocínio é uma
formulação de uma hipótese, mas sem remeter à possibilidade de as premissas
serem verdadeiras e a conclusão ser falsa (é possível os peixes não morderem a
isca sem ter chovido). Usar esse exemplo pode ser problemático quando nas
linhas anteriores ele mostrou que um argumento pode ser inválido e nada sobre a
validade do exemplo acima foi mencionado, dando a ideia de tratar-se de outro
argumento válido.
O segundo capítulo mostra que o
debate importante se situa no nível das premissas que assumimos ou aceitamos ao
iniciar uma discussão. O autor formaliza dois argumentos que geram conclusões
contraditórias, sobre a eutanásia. Depois da formalização, Juvenal Savian Filho
mostra que só aceitamos a conclusão dos argumentos válidos quando assumimos as
premissas dadas. O debate, portanto estaria na aceitação ou não das premissas e
pressupostos dos quais uma pessoa parte para defender seu ponto de vista.
O terceiro capítulo dedica-se a exercícios práticos de formalização
e análise de quatro argumentos, com um nível crescente de dificuldade. O autor
justifica esse exercício como uma introdução à metodologia filosófica:
Essas estratégias de
montar e desmontar raciocínios refletem nossa maneira de pensar. Também podemos
dizer que nelas resume-se a metodologia
da argumentação filosófica. (...) [D]e modo geral , a atitude filosófica consiste
em analisar a estrutura das afirmações e negações que fazemos em nossa leitura
do mundo. (pp 29-30 grifos do autor)
O capítulo quatro conceitua e
exemplifica cinco tipos de raciocínio: Indução, Dedução, Abdução, Analogia e
Argumento de autoridade. O autor propõe, mais uma vez, exercícios de
identificação desses tipos de argumentação. Outro pequeno problema que
percebemos é a caracterização da indução e da dedução. Trata-se de um erro
recorrente em livros didáticos, feito em nome da simplificação. A indução é
simplesmente definida como um procedimento que parte de experiências
particulares para uma conclusão geral. Isso pode dar a impressão de que
argumentos do tipo “Todos os corvos observados até hoje são pretos, logo o
próximo corvo a ser observado deve ser preto” não seria uma indução porque tem
uma conclusão particular. Mas é obviamente um argumento indutivo porque está
baseado na experiência passada e a verdade das premissas não garante a verdade
da conclusão, conferindo apenas uma probabilidade. Com relação à dedução, um
erro semelhante é cometido: o autor define dedução como um procedimento que
parte do geral para uma conclusão particular. Seria mais correto dizer que é um
raciocínio em que é impossível ocorrer premissas verdadeiras e conclusão falsa.
O argumento “Todo belorizontino é mineiro. Todo mineiro é brasileiro. Logo todo
belorizontino é brasileiro” é uma dedução com uma conclusão geral.
O quinto capítulo é
provavelmente o de maior interesse para uma metodologia filosófica. Ele trata
da análise de textos da tradição da filosofia. O autor foi muito feliz na
escolha dos textos que compuseram este capítulo. Juvenal Savian Filho explica
os passos para a compreensão de excertos de Aristóteles e Descartes. O capítulo
segue a mesma lógica dos anteriores: exercícios comentados e outros textos para
treinar. Todo o instrumental já ofertado ao leitor nos primeiros capítulos é
agora é utilizado com textos filosóficos. Os trechos são separados em momentos,
os argumentos formalizados e as teses tornam-se claras.
O autor ainda separa um breve
capítulo para textos aforismáticos e outro infelizmente muito breve para a
escrita de ensaios filosóficos. É, entretanto, na conclusão intitulada “Dicas
de viagem” que o professor da UNIFESP oferece ótimas recomendações
bibliográficas e de internet para quem quer aprofundar-se no estudo filosófico,
desde obras de metodologia filosófica, passando por dicionários e textos para
conhecimento de história da filosofia.
Enfim, trata-se de uma obra
muito útil para alunos e professores de filosofia do Ensino Médio. Os problemas
aqui referidos podem ser facilmente contornados por um professor com boa
formação. “Argumentação: a ferramenta do filosofar” é um pequeno livro que faz
em suas poucas páginas o que praticamente nenhum manual escolar brasileiro
dedicado à filosofia faz: ensina a pensar com rigor e a ler textos de filósofos
com método.
[1] Há um volume (9) da mesma coleção dedicado especificamente à lógica
e o qual também recomendamos: RODRIGUES, Abílio. Lógica. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
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