
Nossa contemporaneidade constantemente
desmente o filósofo de Estagira. Em tempos de alta conectividade existe uma
infinidade de informação disponível a qualquer um que saiba acessar o Google ou
outro portal de busca. A facilidade de encontrar dados, aliada às novas
tecnologias de busca (em sua crescente eficiência) é inversamente proporcional
ao esforço realizado para compreender, refletir e julgar os mesmos textos
encontrados ou ainda os problemas que motivaram tal busca.
A nova geração, para a qual sempre
inventam-se novos rótulos, possui uma biblioteca maior do que a famosa
cidade de Alexandria do Egito, nos tempos áureos do grande Alexandre. Batizarei
essa geração de geração "I", nome que refere-se aos adolescentes que
sustentam o i-pad, o i-phone, o i-pod como uma extensão do próprio corpo e os
sites de busca como extensão do cérebro. Essa geração não se desliga das novas
tecnologias nem dormindo.
Estou longe, no entanto, de ver esse
processo de democratização da informação como um fato negativo, percebo que
hoje temos ferramentas fantásticas de pesquisa e possibilidade de
desenvolvimento do conhecimento praticamente em tempo real, com discussões
virtuais em fóruns especializados, acesso a periódicos científicos de qualidade
e consulta a obras digitalizadas que provavelmente só teríamos acesso se fôssemos sócios de várias bibliotecas das melhores universidades do mundo.
Assim, ninguém hoje pode reclamar da falta
de fontes de pesquisa. Mas os professores podem certamente atestar (e digo por
experiência própria) que falta algo sem o qual nenhuma ciência pode surgir: o
desejo de conhecer. A ciência, como a filosofia, surge a partir de problemas
que demandam uma solução criativa, fundamentada, gestada num espírito crítico e
reflexivo.
Ao propor questões para os estudantes, um
professor espera que o aluno seja capaz de compreender um texto, pensar
alternativas, analisar argumentos. Mas num passe de mágica temos um Yahoo!
respostas e os problemas são resolvidos. Recebeu um dever de casa que exige ler
e pensar? Uma entrada nas redes sociais viabiliza repassar o questionário para
respondedores voluntários.
Há um problema ético e outro pedagógico nesse tipo
de comportamento da geração "I". Eticamente é indefensável a
apropriação de textos sem a devida referência ao verdadeiro autor.
Pedagogicamente a questão é a falta de paciência em acompanhar um argumento, de
proposição em proposição até a conclusão. Surge daí uma atitude dogmática, pois
não exige justificação dos posicionamentos pesquisados. Só a resposta importa, não interessam as razões para tal resposta.
Se houvesse desejo de aprender, as
respostas do Yahoo! ou dos fóruns virtuais possibilitariam que o estudante
chegasse a uma síntese pessoal, fruto de uma compreensão e de reflexão. Mas
como a ordem do dia é navegar pelas respostas (qualquer uma), copiar e colar,
temos uma geração "I" que cresce com preguiça de pensar sobre
questões que exigem uma argumentação coerente.
Em suma, temos um paradoxo atual:
possuímos fontes de sobra para pesquisa, o que falta por aí é o desejo de
conhecer.
mto legal o texto, parabéns
ResponderExcluirMuito bom. Parabéns
ResponderExcluirOlá Tiago, gostei do texto!
ResponderExcluirAlguns trechos me lembraram uma entrevista do Rubem Alves. Nas partes em que vc diz: "A ciência, como a filosofia, surge a partir de problemas que demandam uma solução criativa, fundamentada, gestada num espírito crítico e reflexivo" e "o que falta por aí é o desejo de conhecer".
Rubem Alves fala algo sobre essa temática, "Aprender a Fazer", acho que vc vai gostar. Segue no vídeo, de 1min pra frente:
http://www.youtube.com/watch?v=hHXky5ILlMc
Um grande abraço, João