11 agosto 2009

Feliz dia dos estudantes


Hoje, 11 de agosto, dia dos estudantes. Eu prefiro a palavra estudante do que a palavra aluno. Aluno significa, literalmente, sem luz. Isso parte do pressuposto que o professor é aquele iluminado que fornece a luz da ciência aos seus aprendizes, os que não sabem... O aluno é definido por aquilo que ele não é, por aquilo que lhe falta.


Estudante é outra coisa, é uma condição que não se aplica somente aos matriculados na escola, mas a todos os que desejam conhecer alguma coisa, a todos que desejam aprimorar o que já conhecem, todos os que amam o saber, todos os que desenvolvem novos saberes, todos que pesquisam, criticam, renovam o conhecimento.

Seria realmente muito triste se nossos professores não fossem também estudantes. Seria como considerar que todo o conhecimento possível já estivesse aí pronto, disponível, inalterável. Professores também têm de ler, estudar, buscar novas fontes, criticar estado do conhecimento atual. Só pode pretender ensinar, quem está disposto a aprender. Aliás, segundo o grande pensador da educação, Paulo Freire, "ninguém ensina ninguém, mas aprendemos uns com os outros".

Convenhamos, nehum de nós está pronto, a vida é uma porção limitada de tempo para realizar-mos a missão impossível de nos tornar completos. Leonardo Boff disse uma vez, em uma palestra, que somos inteiros, mas não somos completos. Mesmo que a completude seja uma promessa irrealizável, penso que é por causa desse desejo que estudamos. Porque estamos todos aprendendo a ser humanos, aprendendo a usar a liberdade que temos, aprendendo a usar as palavras certas nas horas certas, aprendendo técnicas novas, aprendendo a aprender.

Estudantes, então, somos todos nós, seres inquietos e desejantes, aprendizes e mestres da vida. A todos os estudantes, meus votos de coragem, perseverança e felicidades nas buscas.

09 julho 2009

Sobre a felicidade e o sentido da vida


Recentemente trabalhei a filosofia de Aristóteles e, em seguida a filosofia do helenismo com meus alunos do Colégio Sagrado Coração de Jesus. Uma das temáticas que salta aos olhos é a discussão sobre a Felicidade (eudaimonia). O que é e como alcançá-la?

Sei que esse tema prende a atenção e tenho visto como há repercussão das discussões levantadas pelos textos e aulas. Então gostaria de deixar um presente de férias para meus alunos e leitores.

O primeiro é a tradução portuguesa (feita por Desidério Murcho) da carta de Epicuro a Meneceu, sobre a felicidade:

O segundo texto é um artigo intitulado Sísifo e o sentido da vida (ver a imagem), cuja autoria é também de Desidério Murcho:

Espero que nesse período de julho esses textos ajudem a aprofundar o tema FELICIDADE e que, sobretudo, proporcionem ao leitor a aportunidade de buscar a sabedoria, razão de ser da filosofia.

01 julho 2009

Ensino de Filosofia



A legislação brasileira sobre educação reconhece, ainda que timidamente, a importância da Filosofia (e da Sociologia) na formação de pessoas críticas e cidadãs. No entanto, só a partir de uma lei sancionada pelo presidente Lula no ano de 2008 essas disciplinas tornaram-se obrigatórias no currículo do Ensino Médio.

Talvez por essa razão, há muita discrepância na maneira como os professores tratam o ensino de filosofia. Há, igualmente, uma imensa quantidade de livros didáticos cujos objetivos pedagógicos são muito díspares. Uns visam o ensino da História da Filosofia, outros preferem o tratamento por Temas Filosóficos. Alguns textos voltados para adolescentes beiram a auto-ajuda e poucos realmente pensam no livro como material didático para uma determinada etapa da formação do adolescente.

27 abril 2009

Ciência determinista e liberdade moral



Uma das grandes indagações filósóficas é o debate entre indeterminismo e determinismo, ou seja, se há possibilidade da liberdade ou todos os eventos do mundo estão determinados.

Provavelmente o argumento mais forte a favor do determinismo venha da possibilidade de previsão de eventos pela ciência. O sucesso da física de Newton e das leis de Kepler ajudaram a reforçar a ideia de que todos os eventos (e por sua vez todas as ações) têm uma explicação científica. Mais do que isso, a ciência tornou-se a arte de prever acontecimentos: a velocidade da queda de um corpo, o próximo eclipse solar, o resultado de uma reação química.

Cria-se, com a aceitação da previsibilidade dos eventos pela ciência, o problema da existência da liberdade no campo moral. Somos realmente livres ou nossas ações podem ser previstas da mesma forma que as órbitas dos planetas. Ou ainda, caso nosso conhecimento sobre o comportamento humano torne-se tão vasto quanto nosso conhecimento sobre as leis da física, seremos tão previsíveis quanto a queda de um corpo devido à força da gravidade?

Vale a pena, nesse sentido, conhecer a obra do filósofo da ciência Karl Popper, intitulada "O universo aberto". Nela (que na verdade é o volume II do posfácio à sua famosa "Lógica da descoberta científica") o autor discute o principal argumento a favor do determinismo: o determinismo científico. De modo muito interessante Popper defende a ideia de que, ao contrário do que imaginamos, a ciência não é determinista. O filósofo mostra, assim, a fragilidade do determinismo científico e, portanto, que o principal argumento determinista é falho.

Num artigo escrito em coautoria com meu colega do mestrado, Ronaldo Pimentel, as ideias centrais de Popper são expostas. O texto encontra-se no site: http://www.consciencia.org/argumentos-popperianos-$em-favor-do-indeterminismo-cientifico

04 fevereiro 2009

Economia e ética: uma reflexão para tempos em crise

A economia, como ciência da escassez, visa a regulação entre as necessidades humanas ilimitadas e os recursos físicos ou sociais, sendo estes limitados. Assim, ao contrário do que parece, a economia é também uma das ciências humanas. No entanto, a racionalização entre oferta e procura, ou seja, a lei do mercado traz desafios éticos como toda ação que tem objetivos e consequências para o próprio ser humano.

O primeiro dos desafios na economia é classificar objetivamente algo muito subjetivo nas pessoas humanas: a fronteira entre a necessidade e o desejo. O ser humano tem desejos ilimitados e recursos limitados para satisfazer-se. E a lei do mercado segue uma lógica bem determinada: o recurso que tem maior procura torna-se mais valioso porque se esgota mais facilmente.

Ao mesmo tempo, já se sabe de antemão ser impossível saciar um desejo ilimitado, sendo necessário criar prioridades e definir quais áreas podem ou não ser sacrificadas para a satisfação de um maior número de pessoas. Mais uma vez cria-se um impasse: qual o critério? Nesse ponto é importante definir quais os valores que nortearão as opções econômicas. Se o critério será ético ou se será econômico.

Em outras palavras, isso significa que se pode, por exemplo, sacrificar a eficiência e o lucro máximo em prol de um maior número de trabalhadores. Ou, numa opção utilitarista, alcançar o lucro máximo em detrimento dos trabalhadores.

A necessidade da reflexão ética na economia é justamente aliar os valores imprescindíveis, que muitas vezes são atropelados pela lógica do mercado, às necessidades da produção e do consumo, ajudando a definir o que pode ou não pode ser sacrificado nesse sistema. Valores como justiça social e direitos humanos não podem ser deixados de lado.

Ao mesmo tempo, a reflexão não pode perder-se em ideais vagos e muitas vezes impraticáveis num campo tão prático. É preciso ter critérios de justiça, mas com realismo, para não acabar levando toda uma população ao empobrecimento, surtindo efeito contrário à distribuição de renda desejável. Todo tipo de ação nesse campo pode trazer uma reação indesejável.

Cabe, no entanto, indagações a respeito dos valores que regem a economia e seus rumos. Sabe-se que vivemos em um mundo de muitas transformações, de globalização, com suas consequências de otimização do processo produtivo, com novas tecnologias que substituem o trabalho humano e com o aumento progressivo de uma massa de desempregados. As empresas grandes engolem as pequenas e, em nome da sobrevivência, a concorrência precisa diminuir os custos, cortar empregos, automatizar e colocar um produto similar no mercado.

A rapidez dessas transformações não foi acompanhada por uma reflexão ética capaz de propor um modelo econômico alternativo que não abrisse mão dos direitos trabalhistas, como vem ocorrendo. Assim, patrões não querem arcar com os custos de um trabalhador garantidos na constituição por considerarem muito onerosos. Os trabalhadores, por sua vez, para não perderem o emprego submetem-se a contratos que limitam seus direitos. Ao mesmo tempo, o processo de globalização favorece as grandes empresas, enfraquece a atuação dos sindicatos e criam concentração de renda. É isso que vemos na atual crise mundial: reportagens sobre a diminuição da produção, sobre a taxa de desemprego, enquetes sobre a possibilidade de diminuição da carga horária com consequentes reduções salariais.

Por isso a existência legítima de um Fórum Social Mundial se justifica. É um espaço de diálogo sobre alternativas ao modelo capitalista atual. Muitos líderes latino-americanos e mundiais trocaram Davos por Belém por entender que o sistema econômico atual não se sustenta sem o prejuízo de muitos seres humanos e do planeta em seu todo. Uma crise global demanda soluções também globais e é isso que o FSM almeja. Uma vez que as decisões dos governantes, dos banqueiros e dos grandes empresários transformaram o capitalismo nesse sistema que privilegia a especulação financeira e as grandes corporações, novas decisões podem mudar os rumos do mundo. Em outras palavras: esse sistema foi criado e conduzido para o estágio atual conforme a decisão de seres humanos, não estamos fadados a perecer por sua causa. Dessa forma o lema do FSM ainda é plausível: um outro mundo é possível!

Enfim, o papel da ética na economia é alertar para o sacrifício da maior parcela da população mundial nessa lógica utilitarista e propor um modelo mais ecológico, ou seja, da interdependência de todos os seres no planeta. Ética na economia exige a convocação de todos os governantes e condutores da economia a rever se os benefícios do progresso chegam à maior parcela da população e convencer que só será possível a vida para todos os seres humanos se a lógica da justiça e da vida prevalecer.