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17 outubro 2010

O uso político da religião nas eleições 2010

É lamentável que o futuro político do Brasil seja discutido nas bases de questões do foro íntimo cuja discussão, embora necessária, não parece relevante para definir o melhor projeto governamental em disputa. Religião é assunto sério, diz respeito a crenças fundamentais e que dão sentido à vida de muitas pessoas. Por essa mesma razão considero desrespeito aos brasileiros panfletar assuntos religiosos para adquirir vantagens eleitorais. Qualquer candidato que faça isso age maquiavelicamente sob o lema de que os fins justificam os meios. 

O meio, no caso é a religião, utilizada como arsenal contra uns, como trampolim para outros. Meu temor é que as pessoas religiosas não percebam que estão sendo instrumentalizadas e tratadas como incapazes de pensar por si mesmas no que tange às decisões políticas. 

12 julho 2010

Congresso brasileiro: desrespeito ao cidadão

Deixo abaixo um vídeo do youtube sobre o descaso dos congressistas brasileiros aos eleitores e ao interesse nacional. Assinam uma petição falsa de um suposto deputado, pedindo inclusão da cachaça dentre os itens da cesta básica. A grande maioria sequer leu o documento, alguns até partiram para agressão. Espero que a memória dos brasileiros dure pelo menos até as eleições.

http://www.youtube.com/watch?v=fmtbqu4VhDs&feature=player_embedded

03 dezembro 2009

Maquiavel além do Príncipe: o povo como ator político

  1. PROBLEMATIZAÇÃO

Sem dúvida alguma, a obra mais conhecida, comentada e controversa do pensador florentino Nicolau Maquiavel é O príncipe. Nela, o filósofo renascentista discorre sobre a criação e a conservação das formas de governo por ele chamada de principados. Maquiavel trata claramente de indicar os meios mais eficazes de fundar um Estado Absolutista. Seja O Príncipe um livro de conselhos ao monarca, um estudo histórico de que procura tirar as lições do passado, ou simplesmente uma constatação do que constitui a política de fato (aquilo que o florentino acredita ser a “verità effetuale”), ainda assim o ator principal da ação política seria o governante. O príncipe virtuoso no sentido maquiavélico não seria o piedoso cristão, mas o chefe capaz de concorrer com a impetuosa fortuna pelo comando dos acontecimentos. A virtù do príncipe está em aproveitar uma boa fortuna, o momento propício, e preparar-se de tal forma para todo tipo de situação indesejada de modo que seus danos seriam minimizados, seu ímpeto controlado. Cabe ao príncipe prudente tomar as melhores decisões para cada momento.

22 setembro 2009

Onde está a democracia? (resenha)

85-7041-319-X
A editora UFMG reimprimiu recentemente o livro-cartilha sobre a democracia no Brasil intitulado “Onde está a democracia?”. É uma obra de fácil acesso, cujos autores (José Eisenberg e Thamy Pogrebinschi) merecem um elogio pela simplicidade e didática.

O texto trata não só da explicação de termos como Democracia, República Federativa, Constituição,Três Poderes, mas também faz questão de mostrar como essas instâncias são praticadas no Brasil: as várias constituições, o processo legislativo, as interferências entre os poderes, os partidos e suas tendências, para citar alguns exemplos.

O livro consegue superar a expectativa do leitor, pois além de explicar o funcionamento da política brasileira, também atenta para o poder da mídia, para a importância do voto, da participação na esfera pública, para o acesso à justiça, e sobre direitos e deveres. Esse importante adendo encontra-se no capítulo chamado “Para além das eleições” e mostra que política não é atividade exercida apenas pelos políticos profissionais, mas por todas as pessoas conscientes de seu papel cidadão.

Seria, no entanto, injusto, deixar de mencionar as ilustrações de Adão Iturrusgarai e Laerte. Os desenhistas foram brilhantes e, sem perder o bom humor, traduziram em figuras e charges o espírito do texto. Pode-se afirmar que raras vezes ilustrações casaram-se tão bem com o conteúdo de um livro.

“Onde está a democracia?” figura, dessa forma,  nessas exceções em que a escrita simples, charges e ilustrações não significam pobreza de conteúdo e não implicam simplificações redutoras. Pelo contrário, o livro informa, critica, incentiva e, o mais importante, provoca. Parabéns à editora UFMG pela reimpressão, essa obra não pode deixar de ser lida.

Para compras online no website da editora, siga o link: http://www.editoraufmg.com.br/carrinho.asp?codigo_produto=1218

Tiago Luís T. Oliveira – professor de Filosofia.

ANEXO:
processo-legislativo

25 janeiro 2009

Política e violência: um retrato do século XX e XXI

O século XX foi marcado pela violência, muitas das vezes praticada como ato político, seja para a manutenção de um governo, seja para derrubar o Estado vigente.

Assim foi desde o início do século, que viu a ação dos anarquistas (1911) e a violência da Revolução Russa (1917), quando, liderados por Lênin, os bolcheviques chegaram ao poder e o líder não hesitou em vingar os atentados que sofreu. Depois Stalin assassinou Trotsky e causou enorme terror.

A Alemanha nazista presenciou o regime de Hitler, com sua ideologia da raça ariana e a dizimação de seis milhões de judeus. Na China a revolução foi bem sucedida pela guerrilha planejada por Mao Tse Tung. A guerrilha também levou Cuba à ditadura socialista de Fidel Castro (1959) e foi forte arma contra os soldados norte-americanos no Vietnã. No Peru formou-se o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso e a violência partia também da repressão militar.

Aliás, as ditaduras militares da América Latina feriram em todos os níveis os direitos humanos. Na Argentina, a ditadura pós-peronista causou 25 mil assassinatos. Em El Salvador, os americanos forneceram armas, treino e patrocínio contra guerrilheiros marxistas. Aí a violência vinha dos dois lados e quem sofria era o povo inocente. Houve, em El Salvador, morte de membros da Igreja (incluindo o bispo Dom Oscar Romero) e 11 anos de violência. No Haiti foram gerados esquadrões da morte nas favelas.

Em 1954 o levante pela libertação da Argélia causou violência pelos revolucionários e pela repressão a estes. Cometeram-se vários atos terroristas e, até a independência em 1962, contabilizaram-se um milhão de mortes nos conflitos.

Lutas separatistas trouxeram violência e morte à Índia e ao Paquistão. É dramática também a história da Irlanda por causa do terrorismo do IRA e da repressão contra os separatistas. Como a Grã-Bretanha só reconheceu a independência de uma parte da Irlanda, os conflitos de interesse entre católicos e protestantes fizeram ressurgir o IRA. Da mesma forma o grupo ETA reinvindicava a criação do país Basco, no território ao norte da Espanha.

O fervor religioso foi causa de violência, radicalizando o conflito entre Judeus e Palestinos. Depois do holocausto, judeus reinvindicaram um território na Palestina e, num levante contra o domínio britânico foi criado o Estado de Israel, em 1948. Com isso os palestinos se refugiaram em países vizinhos. É criado o Fatah (retorno dos palestinos) por Arafat. O território considerado sagrado para as três grandes religiões monoteístas viu vários atos terroristas, seja dos grupos palestinos, seja do Estado de Israel. Houve o levante dos civis palestinos (intifada) e a repressão israelense. Mesmo com tentativas de paz, a violência é agravada pelo fundamentalismo religioso.

Percebe-se, em todos esses exemplos da história recente, que a violência é um poderoso recurso político. O Estado muitas vezes usou a força para manter o poder, reprimindo toda manifestação e tentativa revolucionária. Os grupos de contestação, separatistas, também abusaram da violência como arma política, seja para chamar atenção, seja para forçar uma mudança no poder, seja para conseguir recursos. Uma das mais dramáticas armas é o terrorismo, usado não só pelos revolucionários e pelos estados ditatoriais, mas também por Estados ditos democráticos, sob o pretexto de guerra preventiva. Foi o que se observou nas investidas americanas contra o Afeganistão e Iraque e o que se observa recentemente na política belicosa do Estado de Israel contra os palestinos.

Por fim, constata-se que, na guerra pelo poder, o uso da violência acaba afetando a vida de pessoas que em nada se beneficiam da mesma. Ao contrário, essas pessoas se vêm no fogo cruzado e são obrigadas a se mudar, buscar um refúgio, quando não têm a própria vida e a de seus entes tirada sem sequer terem parte nesses conflitos. No final, para que os grupos políticos alcancem seus objetivos, os inocentes são os mais sacrificados. Pelo visto, a tendência é que nosso século mantenha o nível de violência do século passado.