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08 março 2011

Uma ética para a alimentação

Peter Singer - filósofo especialista em Ética
Você já parou para pensar nas implicações éticas de seus hábitos alimentares? Pode parecer que nada mais justo é uma pessoa escolher o próprio cardápio. E de fato esse é um direito de que a maioria das pessoas deveria gozar. No entanto a questão é outra: como são criados os animais que se transformam em alimento? Essa é uma questão que não apenas envolve uma reflexão ética sobre os direitos dos animais (e nosso pretenso direito a maltratar seres de outras espécies) como uma reflexão sobre a qualidade nutricional de nossa alimentação (e um cuidado com a própria saúde que também envolve uma ética do cuidado de si).

Quem nos alerta para esses pontos tão pouco discutidos é o filósofo australiano Peter Singer. Acompanhe essa entrevista concedida à revista VEJA:

06 outubro 2010

Ética e Moral: qual a diferença?

Infelizmente, a etimologia não ajuda a diferenciar "ética" de "moral". Simplesmente a palavra grega ethos significa morada ou costume. A palavra latina equivalente é mos, moris, que também significa morada, costume. Qualquer diferenciação entre ética e moral veio, portanto, do uso dessas palavras.

No âmbito filosófico, existe o costume (ethos) de definir bem os conceitos para melhor compreensão. Comicamente, esse costume também se aplica a esses termos relativos ao costume: moral significa um conjunto de normas e valores aceitos por um indivíduo ou grupo como corretos (ou seja, os deveres que nos impomos por considerá-los o certo a ser feito).  Ética  seria o estudo filosófico da moral, a busca pela fundamentação da moral, definir os critérios para decidir entre o certo e o errado. Difícil entender? Talvez alguns exemplos nos ajudem...

04 fevereiro 2009

Economia e ética: uma reflexão para tempos em crise

A economia, como ciência da escassez, visa a regulação entre as necessidades humanas ilimitadas e os recursos físicos ou sociais, sendo estes limitados. Assim, ao contrário do que parece, a economia é também uma das ciências humanas. No entanto, a racionalização entre oferta e procura, ou seja, a lei do mercado traz desafios éticos como toda ação que tem objetivos e consequências para o próprio ser humano.

O primeiro dos desafios na economia é classificar objetivamente algo muito subjetivo nas pessoas humanas: a fronteira entre a necessidade e o desejo. O ser humano tem desejos ilimitados e recursos limitados para satisfazer-se. E a lei do mercado segue uma lógica bem determinada: o recurso que tem maior procura torna-se mais valioso porque se esgota mais facilmente.

Ao mesmo tempo, já se sabe de antemão ser impossível saciar um desejo ilimitado, sendo necessário criar prioridades e definir quais áreas podem ou não ser sacrificadas para a satisfação de um maior número de pessoas. Mais uma vez cria-se um impasse: qual o critério? Nesse ponto é importante definir quais os valores que nortearão as opções econômicas. Se o critério será ético ou se será econômico.

Em outras palavras, isso significa que se pode, por exemplo, sacrificar a eficiência e o lucro máximo em prol de um maior número de trabalhadores. Ou, numa opção utilitarista, alcançar o lucro máximo em detrimento dos trabalhadores.

A necessidade da reflexão ética na economia é justamente aliar os valores imprescindíveis, que muitas vezes são atropelados pela lógica do mercado, às necessidades da produção e do consumo, ajudando a definir o que pode ou não pode ser sacrificado nesse sistema. Valores como justiça social e direitos humanos não podem ser deixados de lado.

Ao mesmo tempo, a reflexão não pode perder-se em ideais vagos e muitas vezes impraticáveis num campo tão prático. É preciso ter critérios de justiça, mas com realismo, para não acabar levando toda uma população ao empobrecimento, surtindo efeito contrário à distribuição de renda desejável. Todo tipo de ação nesse campo pode trazer uma reação indesejável.

Cabe, no entanto, indagações a respeito dos valores que regem a economia e seus rumos. Sabe-se que vivemos em um mundo de muitas transformações, de globalização, com suas consequências de otimização do processo produtivo, com novas tecnologias que substituem o trabalho humano e com o aumento progressivo de uma massa de desempregados. As empresas grandes engolem as pequenas e, em nome da sobrevivência, a concorrência precisa diminuir os custos, cortar empregos, automatizar e colocar um produto similar no mercado.

A rapidez dessas transformações não foi acompanhada por uma reflexão ética capaz de propor um modelo econômico alternativo que não abrisse mão dos direitos trabalhistas, como vem ocorrendo. Assim, patrões não querem arcar com os custos de um trabalhador garantidos na constituição por considerarem muito onerosos. Os trabalhadores, por sua vez, para não perderem o emprego submetem-se a contratos que limitam seus direitos. Ao mesmo tempo, o processo de globalização favorece as grandes empresas, enfraquece a atuação dos sindicatos e criam concentração de renda. É isso que vemos na atual crise mundial: reportagens sobre a diminuição da produção, sobre a taxa de desemprego, enquetes sobre a possibilidade de diminuição da carga horária com consequentes reduções salariais.

Por isso a existência legítima de um Fórum Social Mundial se justifica. É um espaço de diálogo sobre alternativas ao modelo capitalista atual. Muitos líderes latino-americanos e mundiais trocaram Davos por Belém por entender que o sistema econômico atual não se sustenta sem o prejuízo de muitos seres humanos e do planeta em seu todo. Uma crise global demanda soluções também globais e é isso que o FSM almeja. Uma vez que as decisões dos governantes, dos banqueiros e dos grandes empresários transformaram o capitalismo nesse sistema que privilegia a especulação financeira e as grandes corporações, novas decisões podem mudar os rumos do mundo. Em outras palavras: esse sistema foi criado e conduzido para o estágio atual conforme a decisão de seres humanos, não estamos fadados a perecer por sua causa. Dessa forma o lema do FSM ainda é plausível: um outro mundo é possível!

Enfim, o papel da ética na economia é alertar para o sacrifício da maior parcela da população mundial nessa lógica utilitarista e propor um modelo mais ecológico, ou seja, da interdependência de todos os seres no planeta. Ética na economia exige a convocação de todos os governantes e condutores da economia a rever se os benefícios do progresso chegam à maior parcela da população e convencer que só será possível a vida para todos os seres humanos se a lógica da justiça e da vida prevalecer.

20 junho 2008

A temperança ontem e hoje



1.Uma aproximação do conceito de virtude
O discurso sobre virtudes na sociedade contemporânea parece desgastado e sem força de penetração. Muitas vezes na história entenderam-se as virtudes num sentido moral de dever, de atos pré-admitidos como bons em si, e cuja prática seria desejável em vista de uma retidão de caráter e uma santidade de vida.

Identificar as virtudes apenas com atos heróicos isolados parece reduzir o verdadeiro significado que elas podem ter para as mulheres e homens hodiernos.

Virtude é um termo latino (de virtus, vir) cuja semântica remonta ao homem, à força. Mas virtus é a tradução do grego areté. Na concepção clássica grega, areté corresponde a excelência e relaciona-se com a realização última do ser humano. Trata-se de alcançar a vida desejável, a vida boa (eudaimonia). Só pode ter uma vida boa o homem de excelência, virtuoso.

Não é o caso de praticar as virtudes, mas de ser virtuoso. Poderíamos falar até mesmo de um “círculo virtuoso”: só o homem virtuoso age com virtude, e o hábito da virtude torna o homem virtuoso. Areté é, portando uma disposição para o bem, que permite que o ser humano tenha condições de escolher o melhor e realiza-lo. Em termos aristotélicos, corresponderia ao intermédio entre a potência e o ato, entre o querer e o agir bem. O hábito constante da virtude predispõe o homem para desejar o melhor, inclina-o (potência) em direção ao bem maior para todos (e assim ao melhor pra si mesmo). E a disposição para o bem faz com que o homem aja (ato) com virtude.

A eudaimonia seria o fim último (telos) do agir humano. No mundo antigo a eudaimonia era indissociável da vida pública. Só era possível viver a vida boa dentro da polis, em sociedade. O homem virtuoso é que compõe a cidade virtuosa. Querer e agir no sentido do bem da cidade é querer e agir em prol da própria felicidade.

Nesse sentido, o discurso das virtudes permanece bem atual. Pois a identificação de felicidade com a mera realização das vontades individuais vem mostrando-se um falacioso discurso, que apesar de apregoado por todos os lados pela mídia, pelo relativismo moral e até mesmo por grupos religiosos contemporâneos, torna-se insustentável.

Além do mais, percebe-se que a virtude diz menos a respeito de ações pontuais do que ao ser humano em sua totalidade. Ser virtuoso é, dizendo de modo muito simples, humanizar-se, tornar-se humano, realizar-se. E aqui é preciso concordar com Aristóteles, para quem só pode possuir uma virtude aquele que possui a todas.

Em sua Ética a Nicômaco, o filósofo estagirita cita quatro virtudes que devem compor o cidadão, e que ficaram conhecidas desde a Idade Média como virtudes cardeais. São elas a Prudência, a Coragem, a Temperança e a Justiça. O conceito aristotélico de virtude é sempre o meio termo entre dois vícios, entre dois extremos. É a própria aplicação da justiça nos campos da razão (prudência), do instinto (coragem) e do desejo (temperança). Essa justa medida é que equilibra o ser humano, que o torna humano, e que o evita ser dominado por um aspecto limitador e desequilibrado de sua vida.

Nossa proposta é refletir sobre a virtude da temperança. O que devemos fazer sem perder de vista a unidade de todas as virtudes e a necessidade de atualização para que este trabalho não seja apenas um debruçar-se sobre concepções históricas ultrapassadas.

2. A temperança em Aristóteles

Segundo o autor de Ética a Nicômaco, a temperança é o meio termo entre a intemperança e a insensibilidade e refere-se aos prazeres e dores (mas predominantemente aos prazeres). Aristóteles reconhece que há pouquíssimos que podem ser deficientes no tocante aos prazeres, por isso não têm um nome específico. A esses o filósofo nomeou insensíveis. O excesso na busca dos prazeres corresponde à intemperança. Assim nos diz Aristóteles:

“Com relação aos prazeres e dores – não todos, e menos no que tange às dores – o meio termo é a temperança e o excesso é a intemperança. Pessoas com dificuldades no tocante aos prazeres não são muito encontradiças, e por este motivo não receberam nome; chamemo-los, porém, ‘insensíveis’”.[1]

A temperança e a intemperança dizem respeito, portanto, àqueles tipos de prazeres mais básicos e naturais não apenas no ser humano, mas em todos os animais, a saber, o tato e o paladar. A intemperança tende, dessa forma, a dominar o ser humano como animal. Nas palavras de Aristóteles,

“A temperança a intemperança relacionam-se com a espécie de prazeres que é compartilhada pelos outros animais, e que por esse motivo parecem inferiores e brutais; são eles os prazeres do tato e do paladar”.[2]

Enquanto o excesso do prazer parece reduzir o ser humano ao estado animal, a insensibilidade parece, ao discípulo de Platão, algo tão raro que faz do insensível algo diferente de um homem.

O temperante, ao contrário, é o meio termo entre o insensível e o intemperante. Não deseja o que não deve, não sofre mais do que deve pela falta desses objetos, e deseja moderadamente pelas coisas agradáveis, úteis e não contraditórias com o que é nobre.

Trata-se, evidentemente, do desejo moderado, equilibrado, justo. De não ser escravo dos desejos, de contentar-se com o que é suficiente e não sofrer por causa dos desejos insaciados.

Para Aristóteles, parece loucura sofrer por prazer. O intemperante acaba por sofrer duplamente: por não conseguir o que deseja e pelo anseio do próprio apetite imoderado:

“O intemperante, pois, almeja todas as coisas agradáveis ou as que mais o são, e é levado pelo seu apetite a escolhê-las a qualquer custo; por isso sofre não apenas quando não os consegue, mas também quando simplesmente anseia por elas (pois o apetite é doloroso). No entanto, parece absurdo sofrer por causa do prazer”.[3]

A temperança relaciona-se muito particularmente com um outro conceito grego muito caro e necessário para se levar uma vida boa: a autarkéia, ou auto-suficiência. Autarkéia é aquilo que torna a vida desejável e carente de nada. [4]

Parece-nos que essa independência, essa auto-suficiência, pode mediar a atualização da virtude da temperança para o homem e a mulher contemporânea. Esse anseio de liberdade que vivemos só pode ser real se os nossos desejos também forem livres. Vejamos agora o que um autor contemporâneo tem a dizer sobre temperança.

3. A temperança em André Comte-Sponville

Comte-Sponville é um filósofo francês e ateu confesso, o que permite ver sua leitura das virtudes de forma menos carregada de preceitos religiosos (apesar de conhecermos sua simpatia declarada pelo budismo). Por isso mesmo é uma visão interessante, mais conforme a mentalidade secular atual.

Em primeiro lugar, chama a atenção o fato de que o autor tenha escrito um “Pequeno tratado das grandes virtudes”. Além do mais, surpreende que a temperança esteja incluída no meio dessas “grandes virtudes”.

A temperança para Comte-Sponville não é a proibição do prazer. Mas refere-se justamente ao desfrute livre dos prazeres. Livre porque moderado. Mais uma vez remonta-se à autarkéia. A temperança permite que se desfrute melhor de tudo porque é um desfrutar livre, porque a moderação nos torna senhores e não escravos do prazer. Assim, além do desfrute do prazer, há também o desfrute da liberdade:

“A temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de escravos. É o desfrutar livre, e que, por isso, desfruta melhor ainda, pois desfruta também sua própria liberdade”. [5]

André Comte-Sponville coloca todo o mérito da temperança nessa capacidade de fazer com que o temperante possa controlar seu desejo e não ser controlado por ele. Nesse sentido os exemplos levantados pelo autor são ilustrativos: poder fumar quando se pode parar, poder beber sem ser dependente do álcool, poder fazer amor sem se tornar escravo do desejo.

O que faz da temperança uma virtude é justamente o fato de que esse equilíbrio entre o desejo e a liberdade é difícil, possível para alguns e impossível para muitos.

Nessa relação entre temperança e autarkéia (traduzida no texto por independência), o filósofo francês cita Epicuro:

“Vemos a independência como um grande bem, não, em absoluto, para que vivamos de pouco, mas a fim de que, se não temos muito, nos contentemos com pouco, persuadidos de que os que menos necessitam da abundância a desfrutam com maior prazer, e de que tudo o que é natural é fácil de conseguir, mas o que é vão é difícil de obter”.[6]

Dessa forma, André Comte-Sponville concorda com Epicuro: as necessidades básicas (fome, sede e sexo) são mais fáceis de saciar. O problema se mostra na maneira como o intemperante é dominado pelo seu desejo: se não tem mais fome, provoca vômito para comer mais; se não quer mais sexo, procura a pornografia para atiçar o desejo novamente. É como se o intemperante precisasse sentir o desejo o tempo todo e sua satisfação fosse a tortura, quer sempre mais e nem o excesso o sacia.

Com razão, o filósofo francês lembra que a temperança não é a virtude mais excepcional. É uma virtude comum diante das demais, mas a dificuldade reside no objeto da mesma, que são os desejos mais necessários (comida, bebida e sexo) e, por isso, mais indomáveis.

4. Concluindo


Gostaríamos de trazer presente a música do grupo Titãs, intitulada “Comida” (Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Marcelo Fromer). Nela fala-se de “fome de” e “sede de”[7] numa distinção interessante entre desejo e necessidade. A necessidade é obviamente de comida e bebida, mas o desejo é direcionado para um prato específico e um “drink” daquela bebida determinada. Saciar as necessidades fisiológicas é tarefa simples. Contentar-se com a comida, a bebida e as relações que se têm é o que demanda temperança.

A intemperança nesses casos é geradora de dor, de angústia e insatisfação. Uma vez que, segundo Freud, as pulsões são uma fonte infinita, é preciso que haja um regulador do desejo para evitar a tragédia da sensação de eterna insatisfação, de eterna infelicidade. Quer chamemos esse regulador de temperança ou de independência frente aos desejos, o certo é que sem essa moderação o projeto antigo da eudaimonia fada-se ao fracasso. Por fim, convém ressaltar que a temperança é também uma virtude para os tempos modernos. Vivemos numa sociedade de consumo, carregada por excessos. Temperar esses excessos constitui uma tarefa necessária para o próprio bem da humanidade.

O exagero causa problemas ecológicos, como a devastação da natureza e a produção de grande quantidade de lixo. O capitalismo tenta fazer-nos acreditar que nossos desejos são verdadeiras necessidades. Tal ideologia gera consumo exagerado e o consumo gera mais problemas ecológicos e sociais. Além disso, a intemperança no alimentar-se causa obesidade ou anorexia. O excesso do consumo de bebida e fumo pode gerar dependência. Em relação aos prazeres sexuais o exagero pode fazer aparecerem fixações psíquicas.

Assim, não é de modo algum antiquado falar de temperança. Pois recomendar temperança é falar da própria liberdade frente aos desejos. Então essa virtude é necessária para aproveitar a vida com sabedoria e, por isso, aproveitar melhor, alcançando a realização final: ser humano plenamente.

BIBLIOGRAFIA

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco Poética. 4. São Paulo: Nova Cultural, 1987/1991. (Os Pensadores).

COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

MACINTYRE, Alasdair. Depois da virtude: um estudo em teoria moral. Bauru: EDUSC, 2001.(Filosofia e política).

MAGNAVITA, Alexey Dodsworth. A felicidade além do princípio do prazer. Discutindo filosofia. São Paulo: Escala editorial, v.2, n.11, mar. 2008.


Notas:




[1] ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco.p. 34
[2] Idem p. 56
[3] Idem p. 57
[4] Cf. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. p. 15. Neste trecho é possível entender o conceito aristotélico de autarkéia: “(...)por ora definimos a auto-suficiência como sendo aquilo que, em si mesmo, torna a vida desejável e carente de nada. Não foram só os clássicos que buscaram essa auto-suficiência. A modernidade iluminista também procurou tratar da autarkéia no sentido de autonomia, esclarecimento (Aufklãrung), saída da menoridade, pensar por si mesmo. Para um maior aprofundamento, ver o conhecido texto de KANT. O que é esclarecimento?
[5] COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno tratado das grandes viturdes. p. 46
[6] EPICURO citado por COMTE-SPONVILLE, André. op. cit. p. 46
[7] “Bebida é água, comida é pasto. Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”

05 março 2008

Quebrando as regras

Quando tratamos do ser humano, falamos de um animal capaz de se reinventar a cada dia. É justamente por essa flexibilidade potencial que temos necessidade de parâmetros, valores e regras. Nós nos perguntamos como viver melhor, como conviver bem com os outros, como devemos proceder em cada ocasião. Queremos definir o certo e o errado.

Isso, porém, não significa que queremos seguir as regras o tempo todo. Talvez a única norma universalmente válida para o ser humano seja a transgressão das normas.

Tal situação é afirmada no conto "A igreja do Diabo", de Machado de Assis. O texto conta da formação de uma religião do egoísmo, vícios e maldade. No entanto, para a surpresa do Diabo, os seus adeptos transgrediam as normas para fazer o bem vez por outra, às escondidas. Eram "tentadas" a comportar-se bem e sucumbiam a esses bons desejos.

O gênio criativo de Machado de Assis não deixou de expressar com realismo a mania de violar regras que os seres humanos têm. Isso não é uma acusação e nem uma apologia. É simplesmente uma constatação.

A transgressão não é contraditória com a necessidade de normas que o ser humano tem. Pelo contrário, é preciso que haja parâmetros de conduta para que haja sua violação. Nossas normas são os padrões nos quais nos espelhamos, mas são palavras fixas num papel, ao passo que nós somos constante mudança, eterno recriar-se.

É por isso que somos transgressores. Não é por maldade, mas por necessidade de nos superar, por desejos sempre insatisfeitos, sempre novos, como nós mesmos.